quarta-feira, 30 de março de 2011

Olhos de travesseiro

Vontade de abraçá-los
A transmissão de uma calma singular
Envolvendo-me
Caçando minhas dúvidas e colocando-as para relaxar

Me deixando encaixar palavras entre suas penas
Revezando entre a leveza do ar e o preenchimento da alegria
Entre meus braços, dançam, cercam todas as minhas linhas
As internas
As dos sentimentos
Do que somente os olhos conseguem pegar

Olhos de travesseiro em que quero descansar
Quero contar tudo de uma vez
Abraçar todo de uma vez
Dormir, tranqüila

Confortáveis, intensos, necessários
Pra abraçar, dormir, contar

Grata pelos olhos de travesseiro que posso contar e os que ainda vou encontrar

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Quanto aos fogos de artifício

Todos os anos tomamos a obrigação de estourar a champanhe, pensar sobre os 365 dias anteriores e colocar metas para os próximos 365. Estamos acostumados aos ritos de passagem para dizer que algo acabou e estamos começando uma nova fase. Sob garrafas empilhadas, roupas brancas manchadas e o resto da ceia, ficam ali tudo o que gostamos, ou não, do ano que passou e as centenas de pensamentos de coisas que deveriam ser feitas, que vão ser ou que poderiam ser, mas você não sente vontade ou coragem para efetivá-las.

Engraçado como precisamos vestir o branco, ouvir os fogos e pular sete ondinhas para desejar um Feliz Ano Novo ao outro ou simplesmente para pensar sobre o que estamos fazendo da nossa vida. Nos apegamos aos ritos de passagem e apoiamos neles as nossas mudanças. É necessário cantar parabéns, entregar presentes, montar a árvore, beber a champanhe...

Pois, vou mudar as coisas em março, desistir daquele emprego em junho, arranjar um namorado em setembro e desejar um ótimo agosto para meu amigo. Ok, não precisamos vestir preto no próximo 31 de dezembro, nos trancar no quarto no aniversário e fundar uma ceita #antisistemaderitosdepassagem, mas, do fundo do coração, não espere o dia 31 de dezembro pra mudar alguma coisa que você não gosta no dia 4 de janeiro. Isso são só números. Uma contagem exercida para não perder o tempo das colheitas.

O dia-a-dia se conta por atitudes, não por horas.

Vou ligar para um amigo, passar um final de semana na praia, tomar um café com aquela colega que não vejo faz tempo, ir a um lugar que gosto, jantar com meus pais e ligar pra desejar um Bom Dia para meu irmão e fazer com que cada uma dessas coisas tenha tanto valor quanto gritar Feliz Ano Novo na praia de Copacabana. Porque tem. E tem mais.

Agora, sinto que estas palavras até chegaram a esbarrar na pieguice (desculpe) em meio ao questionamento da necessidade ou importância desses ritos de passagem (que, de verdade, ainda não sei concluir). Em meio a palavras que queriam instigar alguém a fazer algo diferente ou fazer algo de sempre de outra forma; em meio aos champanhes, aos fogos e aos pensamentos desta marcação que quer deixar de se render pelo ponteiro e passar a ser liderada pelo desejo.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Farol

Mãe chamando para entrar em casa. Pião rodando. Ali, na calçada, brigaram pelas cartas no bafo. Bola rolando com a batida do taco. Pés crescendo com a batida do tempo.

Ali, no portão de casa, um chamou o outro quando o pai brigou pela nota baixa. Um chamou o outro quando o avô morreu. Ali, pela janela, um consolou o outro, na altitude que a infância os permitia.

Confusão. Festa escondidas. Porres. Ali, na sala do amigo, eles misturaram cerveja, pinga, bombeirinhos, vodka e o que tinha de mais barato no bar mais próximo. Discutiram pela garota que um ficou e o outro não. Discutiram futebol. Pouco dinheiro, menos ainda responsabilidade e muita vontade.

Ali, no bar, um ligou para o outro para contar que não sabia o que fazer da vida. Ali, na balada, ele segurou o amigo que perdeu o equilíbrio perdendo a conta dos copos. Ali, num colchão da sala, ele acordou o amigo lhe oferecendo um café bem forte e um remédio para ressaca.

Contas chegando. Aluguel. Namoro. Menos tempo. Mais trabalho. Ali, na viagem de Ano Novo, eles valorizaram os dias que há anos não tinham juntos. Contaram como ia o namoro. Ali, na beira da churrasqueira, contou que a iria pedir em casamento. Disse que estava pensando em crescer. Pensaram que estavam crescendo.

Ali, na praia, estouraram a champanhe, pularam as ondas. Pularam momentos. Pularam anos, histórias. Memórias. Sete ondas, muitos anos. Oferendas. Agradecimentos. Sentados, ali na areia, olharam o mar como se olhassem tudo aquilo que ia e voltava na vida e algo que permanecia ali sempre. Ali, no mar. O farol que iluminava tudo o que precisavam no momento que fosse.

Pique-bandeira, esconde-esconde, pião, taco, shopping, cinema, barzinho, balada, roda de conversa, jogo de futebol no domingo, festa de aniversário própria – depois dos filhos. Fazendo carreira nas amizades. Subindo cargo a cargo, responsabilidade a responsabilidades com aqueles que escolhemos além de conviver, viver.

Pela infância, pela faculdade, pelos acasos, pelos amigos de amigos, pelo trabalho, pelas namoradas, pelas esposas. Atalhos nos quais estas pessoas estão só esperando conversas, encontros, almoços, sorrisos, ombros e abraços para deixar o atalho e entrar no caminho.